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O Facelift dos 35? Como a busca por naturalidade está transformando a cirurgia facial contemporânea
Por Eduardo Sucupira
Durante décadas, o lifting facial foi associado a pacientes acima dos 50 ou 60 anos, quase sempre em estágios avançados de envelhecimento. A imagem clássica do facelift remetia a uma tentativa tardia de recuperar contornos perdidos após anos de flacidez, perda de sustentação cervical e envelhecimento cutâneo evidente. Essa lógica, porém, começa a mudar de maneira silenciosa, e profundamente reveladora do nosso tempo.
Em 2025, uma nova geração passou a frequentar os consultórios de cirurgia facial muito antes do que se imaginava. Pacientes entre 35 e 45 anos demonstram crescente interesse por tratamentos estruturais, prevenção da flacidez e estratégias de envelhecimento mais elegantes e graduais. Curiosamente, não buscam transformação. Buscam permanência anatômica.
A frase mais ouvida hoje talvez não seja mais “quero mudar meu rosto”, mas algo muito mais sofisticado: “quero envelhecer sem perder minha identidade”.
Existe aí uma mudança cultural importante. Depois de anos marcados pelo excesso de preenchimentos, pela padronização facial impulsionada pelas redes sociais e por rostos progressivamente volumizados, observa-se um movimento internacional em direção à discrição estética. A chamada quiet beauty, ou “beleza silenciosa”, tornou-se quase uma reação estética aos exageros da última década. O novo luxo deixou de ser a transformação evidente; passou a ser a aparência descansada, coerente e naturalmente preservada.
Sob a ótica da cirurgia facial contemporânea, esse fenômeno tem uma explicação anatômica clara. O envelhecimento não ocorre apenas na pele. Ele envolve um processo progressivo de frouxidão ligamentar, redistribuição volumétrica, reabsorção óssea e descenso dos compartimentos adiposos profundos e superficiais da face. Em outras palavras: o rosto envelhece em profundidade muito antes de a pele demonstrar sinais evidentes.
É justamente por isso que pacientes mais jovens começam a perceber alterações sutis na definição mandibular, na transição pálpebra-face, no sulco nasogeniano e no contorno cervical, mesmo sem apresentar uma flacidez exuberante. O olhar treinado do cirurgião facial percebe que, muitas vezes, trata-se menos de excesso cutâneo e mais de uma alteração vetorial do suporte facial.
Talvez isso explique por que a prevenção ganhou um papel tão central na medicina estética contemporânea. Diferentemente das gerações anteriores, que frequentemente procuravam intervenção apenas quando os sinais de envelhecimento já estavam estabelecidos, os pacientes atuais passaram a compreender o envelhecimento facial como um processo contínuo. Preservar colágeno, qualidade cutânea e sustentação ligamentar tornou-se tão natural quanto cuidar da saúde cardiovascular ou odontológica.
Nesse contexto, cresce a procura por tecnologias minimamente invasivas, bioestimuladores, ultrassom microfocado, lasers, toxina botulínica e procedimentos regenerativos — capazes de retardar alterações estruturais iniciais. Ao mesmo tempo, observa-se um interesse cada vez maior pelos chamados “mini liftings” e pelos facelifts precoces, realizados em pacientes mais jovens e com graus discretos de flacidez.
Mas existe um ponto técnico importante: o mini lifting contemporâneo não deve ser entendido como uma “cirurgia menor”, e sim como uma cirurgia de indicação mais precoce e vetorialmente mais refinada. Em muitos casos, pequenas correções realizadas no momento adequado permitem reposicionar tecidos profundos com menor necessidade de tração cutânea e com resultados extraordinariamente naturais.
Essa talvez seja a maior transformação conceitual do facelift moderno.
O lifting facial contemporâneo pouco se parece com a cirurgia realizada há três ou quatro décadas. O antigo temor dos rostos artificialmente repuxados já não corresponde à filosofia das técnicas modernas. Hoje, a cirurgia trabalha planos profundos da face, especialmente o Sistema Músculo-Aponeurótico Superficial (SMAS), buscando reposicionar estruturas anatômicas de forma vertical e oblíqua, respeitando os vetores naturais de envelhecimento. O objetivo não é “esticar” a pele, mas restaurar sustentação aos tecidos profundos que sofreram descenso ao longo do tempo.
O professor Ivo Pitanguy costumava afirmar que “a cirurgia plástica deve acompanhar o paciente sem jamais denunciá-lo”. A frase talvez nunca tenha sido tão atual. A estética contemporânea parece caminhar justamente nessa direção: menos intervenção aparente e mais harmonia anatômica.
Outro fenômeno relevante ajuda a explicar essa transformação. Depois de anos de uso contínuo de preenchimentos faciais, muitos pacientes começaram a desenvolver uma percepção crítica sobre os limites da volumização excessiva. O termo filler fatigue, já amplamente utilizado internacionalmente, descreve precisamente essa fadiga estética causada pelo exagero dos procedimentos injetáveis. Em muitos consultórios, cresce a migração para abordagens mais estruturais e menos volumizadoras.
Sob a perspectiva do cirurgião facial, essa mudança é particularmente interessante porque devolve protagonismo à anatomia. Nem todo processo de envelhecimento pode, ou deve, ser tratado apenas com ganho volumétrico. Em determinados pacientes, o excesso de preenchimento acaba mascarando a perda de definição mandibular, aumentando o peso facial e comprometendo justamente aquilo que o paciente contemporâneo mais deseja: naturalidade.
Há ainda um componente sociológico inevitável. Nunca na história as pessoas observaram tanto o próprio rosto. Selfies em alta definição, reuniões virtuais, câmeras frontais e exposição digital contínua alteraram profundamente nossa percepção da imagem facial. Pequenas perdas de contorno mandibular, discretas alterações cervicais e sinais sutis de fadiga passaram a ser percebidos precocemente. O rosto tornou-se uma presença constante diante de si mesmo.
Mas talvez a mudança mais interessante seja emocional. A geração dos 35 não deseja parecer artificial. Existe uma valorização crescente da individualidade facial. Aos poucos, o rosto padronizado perde espaço para uma estética mais personalizada, em que preservar características próprias passou a representar sofisticação. Naturalidade deixou de ser ausência de intervenção; tornou-se, paradoxalmente, o resultado mais difícil de alcançar.
Isso evidentemente não significa que pacientes nessa faixa etária necessitem de cirurgia. Em muitos casos, tratamentos minimamente invasivos continuam oferecendo excelentes resultados preventivos. A indicação de um mini lifting ou de um facelift precoce depende de fatores individuais: genética, qualidade cutânea, perda de colágeno, emagrecimento, exposição solar, tabagismo e padrão específico de envelhecimento. A idade isoladamente nunca deve ser o principal critério cirúrgico.
O que se percebe, contudo, é uma transformação mais ampla na própria ideia de envelhecer. O facelift deixou de representar apenas uma solução tardia para tornar-se, em alguns casos, parte de uma estratégia sofisticada de preservação facial gradual. Caminhamos para uma era menos marcada por excessos e mais orientada por refinamento técnico, individualidade e inteligência anatômica.
A geração dos 35 talvez não esteja, propriamente, correndo para um lifting facial. O que ela parece buscar é algo mais profundo, e talvez mais contemporâneo: a possibilidade de envelhecer preservando contorno, expressão e identidade facial sem abrir mão da naturalidade.
Por Eduardo Sucupira, cirurgião plástico, especialista e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC) e da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS). Membro internacional da American Society for Aesthetic Plastic Surgery (ASAPS). Mestre e doutor pelo Programa de Cirurgia Translacional da Escola Paulista de Medicina pela Universidade Federal de São Paulo
