Alerta que vem do campo: recorde de recuperações judiciais no agro expõe desafios de gestão e crédito no Brasil

 Alerta que vem do campo: recorde de recuperações judiciais no agro expõe desafios de gestão e crédito no Brasil

O agronegócio brasileiro, tradicionalmente associado à resiliência, enfrenta um momento de inflexão. No segundo trimestre de 2025, o setor registrou o maior volume de recuperações judiciais (RJ) de sua história recente. De acordo com levantamento da Serasa Experian, os pedidos cresceram 31,7% em relação ao mesmo período do ano anterior e saltaram 45,2% frente ao primeiro trimestre. Ao todo, foram 565 solicitações, entre produtores pessoa física, empresas rurais e negócios diretamente ligados à cadeia agrícola.

Mais do que um dado conjuntural, o aumento indica um ponto de tensão entre a maturidade empresarial do agro e as condições macroeconômicas do país. Pela primeira vez desde o fim de 2023, os produtores rurais que atuam como pessoa jurídica (PJ) responderam pela maioria dos pedidos, 243 no total, mais que o dobro do registrado um ano antes. O movimento acende um alerta: até mesmo empresas maiores, com estrutura contábil e acesso formal a crédito, estão perdendo fôlego em um cenário de margens estreitas, custos altos e liquidez restrita.

Um retrato da fragilidade estrutural

O avanço das recuperações judiciais no campo não se explica apenas por fatores climáticos ou pela oscilação dos preços das commodities. Ele expõe uma fragilidade estrutural que transcende o agronegócio: a dificuldade de alinhar gestão financeira, planejamento e governança em um ciclo de desaceleração. Com insumos ainda caros, juros elevados e um sistema de crédito cada vez mais seletivo, muitos produtores e empresas rurais se viram encurralados entre prazos de pagamento curtos e receitas em queda.

Embora a taxa Selic tenha iniciado trajetória de recuo, o custo efetivo do crédito permaneceu alto. Bancos e tradings exigem garantias mais rígidas, enquanto cooperativas financeiras enfrentam seus próprios limites de exposição. Nesse ambiente, empresas que cresceram aceleradamente nos anos de bonança, sem reservas suficientes ou instrumentos de proteção cambial e de preço, se tornaram vulneráveis à reversão do ciclo.

O salto das pessoas jurídicas

A virada estatística, com predominância dos pedidos de pessoas jurídicas, é reveladora. Mostra que o problema deixou de ser restrito aos pequenos produtores, tradicionalmente mais expostos às intempéries do mercado, e alcançou empresas mais capitalizadas e profissionalizadas. Esse grupo, em muitos casos, operava com alto nível de alavancagem, financiando expansão e compra de equipamentos por meio de CPRs, barter e derivativos de preço, instrumentos que, quando mal geridos, amplificam o risco em períodos de instabilidade.

A consolidação jurisprudencial que permite ao produtor PJ requerer recuperação judicial também ampliou o número de empresas aptas a ingressar com pedidos, refletindo um amadurecimento do próprio sistema legal. Ainda assim, a escalada evidencia a necessidade de políticas mais consistentes de gestão de risco e de análise de solvência.

Sinais que ultrapassam o agronegócio

O recorde de recuperações no campo funciona como um espelho para toda a economia brasileira. Ele expõe vulnerabilidades que também atingem a indústria, o varejo e o setor de serviços: concentração de clientes, contratos sem indexação adequada, excesso de dependência de capital de giro e ausência de cenários de estresse financeiro. Quando o crédito aperta ou a demanda desacelera, empresas sem estrutura de governança acabam reagindo tardiamente — e, muitas vezes, o socorro vem tarde demais.

O papel da governança e dos “early warnings”

O aprendizado do momento é claro: governança e planejamento são instrumentos de sobrevivência, não de formalidade. Companhias que monitoram indicadores de liquidez, revisam orçamentos com base em múltiplos cenários e mantêm comitês de risco atuantes conseguem reagir antes que o problema se torne judicial. A ausência desses mecanismos transforma uma crise operacional em crise jurídica.

O agronegócio, acostumado a lidar com riscos climáticos e de preço, demonstrou que o risco de gestão pode ser ainda mais corrosivo. A falta de disciplina financeira e de mecanismos de alerta precoce (os chamados early warnings) é hoje um dos principais gatilhos de insolvência — e não apenas no campo.

Um ciclo de aprendizado

Apesar do impacto negativo, o aumento dos pedidos de recuperação judicial pode ser visto como um passo de maturidade institucional. A ferramenta, quando bem utilizada, permite reorganizar passivos, preservar empregos e reestruturar empresas de forma transparente. O problema é quando o recurso chega tarde, após meses de improviso e postergação. Por isso, advogados e consultores têm reforçado que a renegociação extrajudicial — conduzida com base em dados e boa-fé — segue sendo o caminho menos destrutivo e mais eficiente.

Lições para o mercado

O alerta do agronegócio é direto: em tempos de volatilidade cambial, juros altos e ciclos de crédito curtos, não basta vender mais ou produzir melhor — é preciso administrar com precisão cirúrgica o caixa, o endividamento e o risco. O que hoje ocorre nos campos pode se repetir nas fábricas, nos centros de distribuição e nas empresas de tecnologia.

O recorde de recuperações judiciais no setor mais preparado para lidar com risco deveria ser encarado como um sinal de urgência. A era da complacência acabou. Sobreviver nos próximos ciclos exigirá disciplina financeira, governança efetiva e capacidade de adaptação. O campo apenas mostrou, primeiro, o preço de ignorar esses sinais.

Por Meisson G. Eckardt, advogado especialista em Recuperação Judicial

Cesar Franco

Cesar Franco

Colunista da Revista Dimensão.

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