Além da beleza: até onde a cirurgia plástica deve ir?

 Além da beleza: até onde a cirurgia plástica deve ir?

A cirurgia plástica deixou há muito de ser um campo restrito à reconstrução funcional. Nas últimas décadas, passou a ocupar um espaço central nos debates sobre estética, identidade e pertencimento social.

Em uma cultura cada vez mais mediada por imagens, filtradas, editadas e amplificadas pelas redes sociais, o corpo tornou-se não apenas um dado biológico, mas também um projeto simbólico. Nesse cenário, cresce a procura por procedimentos estéticos cada vez mais complexos.

O problema surge quando os padrões que orientam essa busca se afastam da realidade humana. A estética digital, construída por filtros, algoritmos e tendências virais, produz expectativas que o corpo real não pode sustentar. A cirurgia passa, então, a ser utilizada como instrumento da chamada medicina do desejo: intervenções motivadas mais por pressões subjetivas e culturais do que por benefícios clínicos concretos.

A questão que se impõe é ética e prática ao mesmo tempo: até que ponto a medicina deve atender aos desejos do corpo quando eles não garantem benefício real e podem implicar riscos físicos ou psicológicos duradouros?

A experiência clínica e a literatura médica apontam que a busca obsessiva pela perfeição estética frequentemente encobre fragilidades emocionais. Insegurança crônica, ansiedade, depressão e distúrbios de imagem aparecem com frequência entre pacientes que solicitam mudanças radicais ou sucessivas.

Nesses casos, a cirurgia não apenas falha em resolver o sofrimento, como pode aprofundá-lo, transformando-se em resposta inadequada a questões que exigiriam outro tipo de cuidado.

Embora a autonomia do paciente seja um princípio fundamental da medicina contemporânea, ela não é absoluta. O médico não é um simples executor de vontades. Cabe-lhe avaliar se o desejo apresentado nasce de expectativas realistas ou se reflete pressões externas, idealizações irreais ou conflitos psíquicos não elaborados. Um procedimento tecnicamente bem-sucedido pode tornar-se um fracasso humano quando aplicado a uma motivação equivocada.

Essa compreensão não é nova. Já na formação clássica da cirurgia plástica brasileira, o professor Ivo Pitanguy enfatizava que o verdadeiro êxito da especialidade não se media apenas pela correção anatômica, mas pela capacidade de melhorar, de forma responsável, a relação do indivíduo com sua própria imagem. A técnica, isoladamente, nunca foi suficiente; ela precisava estar subordinada a critérios éticos, humanos e psicológicos.

Dados de acompanhamento de longo prazo reforçam essa visão. A maioria dos pacientes relata satisfação nos primeiros anos após uma cirurgia estética. Com o passar do tempo, porém, cresce o número de indivíduos que manifestam frustração, ansiedade ou desejo por novas intervenções. Uma parcela significativa busca ajustes adicionais cerca de uma década depois, muitas vezes impulsionada por mudanças naturais do envelhecimento ou pela percepção de que o resultado não correspondeu à expectativa idealizada inicial.

Esses achados conduzem a uma conclusão incômoda, mas necessária: resultados duradouros dependem menos da sofisticação técnica e mais da qualidade da indicação e da maturidade da decisão. Quando a motivação é frágil ou excessivamente influenciada por padrões externos, a cirurgia tende a integrar um ciclo de insatisfação contínua.

A cirurgia plástica, como qualquer ato médico, deve equilibrar três pilares fundamentais: segurança, benefício real e autonomia informada. Isso exige que riscos, limitações e possíveis frustrações sejam apresentados de forma clara e honesta. Exige também que o cirurgião esteja disposto a recusar procedimentos quando identifica que a intervenção tende mais a perpetuar sofrimento do que a aliviá-lo.

Procedimentos motivados exclusivamente por padrões digitais ou pressões sociais, sem avaliação criteriosa da saúde emocional do paciente, atravessam uma fronteira ética perigosa. O que deveria ser uma ferramenta de cuidado transforma-se em produto de consumo, submetido à lógica da insatisfação permanente.

A cirurgia plástica contemporânea exige mais do que habilidade técnica. Exige escuta, discernimento e responsabilidade moral. Quando bem indicada, pode melhorar a qualidade de vida e a autoestima. Quando reduzida à satisfação imediata de desejos impostos por uma cultura visual efêmera, perde sua função terapêutica.

A medicina do desejo precisa reconhecer limites. O papel do médico não é apenas atender demandas, mas mediar escolhas, equilibrando liberdade individual e responsabilidade profissional. Somente assim a cirurgia plástica pode permanecer fiel ao seu propósito maior: promover bem-estar real e duradouro, e não apenas refletir as distorções de uma sociedade cada vez mais obcecada pela própria imagem.

 

Por Eduardo Sucupira, cirurgião plástico, realizou a sua formação no Serviço do Prof. Ivo Pitanguy(1997-1999). É especialista e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC) e da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS). Membro internacional da American Society for Aesthetic Plastic Surgery (ASAPS). Mestre e Doutor pelo Programa de Cirurgia Translacional da Escola Paulista de Medicina pela Universidade Federal de São Paulo.

Cesar Franco

Cesar Franco

Colunista da Revista Dimensão.

Related post