IA ganha espaço como aliada estratégica de empresas em recuperação judicial
A Inteligência Artificial tem deixado de ser tendência para se tornar ferramenta concreta de gestão, especialmente em cenários de alta complexidade, como o de empresas em Recuperação Judicial. Em um momento em que reorganizar processos, controlar custos e garantir previsibilidade financeira são condições básicas para a sobrevivência do negócio, o uso estratégico da tecnologia pode acelerar e dar mais segurança ao processo de reestruturação.
“Gerir uma empresa já é desafiador. Quando ela está em Recuperação Judicial, o nível de complexidade aumenta de forma significativa. É preciso organizar a casa, criar processos sólidos e evitar qualquer novo passivo”, afirma Meisson G. Eckardt, advogado especializado em Recuperação Judicial e Chief Legal Officer da Safegold Consultoria de Gestão Empresarial. Segundo ele, a IA surge como um instrumento capaz de apoiar decisões críticas e reduzir riscos ao longo do processo.
Ponto de partida
Para Jony Silva, especialista em Gestão Estratégica e Inteligência de Negócios e Head de Gestão de Projetos da Safegold, o ponto de partida é a estratégia. “Antes de aplicar qualquer tecnologia, a empresa precisa ter um plano consistente, com alavancas de resultado bem definidas. A IA entra como um meio para potencializar essas alavancas, trazendo eficiência e previsibilidade”, explica.
Entre as principais aplicações da Inteligência Artificial em empresas em recuperação está a previsão de fluxo de caixa. A tecnologia permite projetar entradas e saídas de recursos com mais precisão, considerando sazonalidade, comportamento de clientes, fornecedores e diferentes cenários de mercado. “A previsibilidade de caixa é vital para honrar compromissos operacionais, financeiros e também aqueles assumidos no plano de recuperação judicial”, destaca Eckardt.
Personalização
Outro ponto sensível é a cobrança inteligente e a gestão da inadimplência. Modelos de IA conseguem classificar clientes de acordo com o risco de atraso e sugerir estratégias personalizadas de cobrança. “Uma empresa em recuperação não pode conviver com surpresas no caixa. A IA ajuda a reduzir a inadimplência e, ao mesmo tempo, preserva o relacionamento com os clientes”, ressalta Jony Silva.
A automação de processos administrativos, por meio da combinação de RPA e IA, também tem impacto direto na redução de custos fixos. Atividades repetitivas nas áreas contábil, fiscal e financeira passam a ser executadas por sistemas inteligentes, liberando as equipes para decisões estratégicas. “Tudo o que é repetitivo e processual pode, e deve, ter tecnologia embarcada, desde que os processos estejam bem definidos”, pontua Silva.
Regra de ouro
No campo jurídico e regulatório, a IA contribui para o controle de contratos e obrigações, monitorando prazos, reajustes, multas e encargos fiscais e trabalhistas. “Evitar a criação de novos passivos é uma regra de ouro em qualquer recuperação judicial. A tecnologia funciona como um radar permanente de riscos”, afirma Eckardt.
Já o monitoramento de despesas e a prevenção de fraudes ajudam a proteger um caixa que, em geral, já é limitado. Sistemas inteligentes identificam anomalias em gastos e movimentações financeiras, cortando desperdícios e aumentando a transparência. “Com uma IA bem calibrada e acompanhamento contínuo, o nível de austeridade aumenta e isso é percebido positivamente pelo mercado”, complementa o executivo da Safegold.
Na avaliação dos especialistas, a Inteligência Artificial não substitui a gestão, mas amplia a capacidade de reação das empresas em recuperação. “Os problemas precisam ser atacados por ordem de prioridade, do maior impacto para o menor. Hoje, com a tecnologia disponível, as empresas têm muito mais recursos para superar essa fase e retomar o caminho do crescimento”, conclui Jony Silva.
